Textos


Não pensava em voltar a Rio da Prata. Nunca mais. Não existem razões bastantes para retornar a uma cidade de quatro mil almas perdida em um canto tão estúpido do mundo que os que ganham a vida fazendo mapas a ignoram. Mas nasci em Rio da Prata (embora isto não seja desculpa para retornar) há quarenta anos; saí para o mundo, deixei o mundo entrar em mim e fui viver tão longe que alguns poucos amigos dos velhos tempos dizem que agora falo com sotaque. O diabo é que Rio da Prata jamais saiu de mim. Atravessou oceanos e me alcançou - flecha maldita - e a dor da ferida não cessa, por mais que eu me esforce por esquecê-la.
 
Voltei por Raquel. Embora ela esteja morta há mais de vinte anos.
 
Não restou nada a ser desvendado. Não pretendo escrever um texto policial. Mas sinto-me na obrigação de informar – sabe-se lá para quem – que Raquel tinha dezesseis anos quando desapareceu em uma noite de São João; duas semanas depois encontraram seu corpo em uma gruta nos arredores de Rio da Prata. Foi estrangulada, mas os laudos da perícia não detectaram sinais de estupro.
 
Raquel estava morta, mas íntegra, proclamou aliviado o padre Isaías. 

Todos diziam que eu amava Raquel. Mentira. Ela era linda, uma semideusa fria, distante, com ares de superioridade que a faziam parecer mais velha, mas, também, mais bela. Raquel nunca me deu atenção, embora vizinhos desde crianças. Não digo isto como um lamento ou por conta de um despeito rancoroso. Nunca a amei. Não é possível amar alguém que não percebe que existimos.

 
Mas Sérgio a amava. E talvez por isto a matou. E é por causa desta impressão, desta pergunta sem resposta possível de ser adivinhada, que decidi voltar. Para ouvir do próprio Sérgio sobre este amor e sobre esta morte. Ou vice versa.
 
Não esperava a impressão inquietante que me assaltou quando, já na prisão, me sentei em uma sala vigiada, do outro lado de uma mesa metálica, frente a frente com Sérgio. Senti um pouco de medo, de espanto e até arrependimento por estar ali. Olhei-o em silêncio por um bom tempo. Ele não parecia ter mudado quase nada durante os anos de cadeia. Apenas seus olhos – que antes eram furtivos e dissimulados – agora me fitavam com firmeza.
 
‘Olá!’. – disse para quebrar o silêncio constrangedor.

Ele balançou a cabeça, mas não de um modo que deixasse perceber se estava me cumprimentando ou me mandando ao inferno.  Pensei em ir embora, mas então ele se inclinou um pouco para frente, descansando os cotovelos sobre a mesa.

‘Então... ’ – a voz dele era baixa, arrastada, e assustadora, ao menos para mim – ‘Uma surpresa que tenha sido você... ’.

Decidi interrompê-lo, parecer mais amigável para que a visita terminasse mais rápido.

 
‘Eu queria vê-lo. Você sempre foi um bom amigo. Acho você um cara legal. ’. – Senti o quanto estava sendo inadequado. Ele estava encarcerado há anos e eu com uma conversa ridícula de que ele era um ‘cara legal’. Fácil para alguém que conhecia metade do mundo dizer palavras de ‘conforto’ para um sujeito que apodrecia em uma cela.

‘Não me engane, Daniel. Você quer falar sobre ela, não é? Sobre Raquel?’.

 
Nos olhos estreitos e avermelhados que me fitavam, nos lábios ressecados e retorcidos e no rosto pálido e magro a centímetros do meu senti que não o conhecia mais. Os anos de encarceramento – talvez o remorso, fustigando-o, dia após dia – transformaram a face que eu me lembrava - simples, despreocupada, amistosa - em uma máscara amargurada e exangue, sem qualquer luz ou sinal de vida.
 
‘Por que não admite que você está aqui por ela?’ – insistiu Sergio, sem tirar os olhos de mim, as mãos espalmadas sobre o tampo da mesa.
 
‘Nada mais normal que eu tenha voltado por ela. Raquel era minha amiga ’ – admiti, decidindo, subitamente, enfrentá-lo.
 
‘Amigo dela? A quem você quer enganar, cara? Você era doido por ela!’ – ele se regozijava com a indiscrição, aquela fofoca mórbida. Queria que eu perdesse a paciência, uma técnica comum em criminosos do seu tipo. Mas eu tinha uma vantagem; eu conhecia o mundo, convivi com as mais variadas pessoas e desenvolvi o que chamo de psicologia instintiva: um processo pendular de adaptação às adversidades, de modo que ninguém consiga, por muito tempo, banquetear-se com minhas fragilidades e, ao mesmo tempo, também uma técnica eficiente para construir rotas de escape quando o confronto se torna mais violento. Ele não iria me intimidar com aquela fanfarra.
 
‘Todos gostavam de Raquel. No entanto, você... ’. – ergui as sobrancelhas, um convite ao duelo, deixando a frase incompleta, para que ele preenchesse a lacuna intencional.
 
Olhei em volta pela sala; era pequena, abafada, com uma janela estreita, de vidros empoeirados, quase à altura do teto. A luz que entrava era bastante apenas para não deixar o ambiente mergulhar em penumbra. Do lado direito, uma superfície espelhada traía a existência de uma sala oculta, onde, certamente, deviam estar os policiais que haviam me conduzido. Pensei no que eles esperavam ouvir; criminoso confesso, há anos encarcerado, que fato novo poderia fornecer qualquer conversa com Sérgio, mesmo que fosse uma conversa com um antigo conhecido como eu? Suspirei cansado e irritado comigo mesmo. Não, eu não poderia ajudá-lo, não agora que tudo estava consumado. Na verdade, ele não queria minha ajuda, nunca a quis. Quem sabe eu poderia tê-lo ajudado a se aproximar de Raquel? Não sei bem o que faria para conseguir um feito tão difícil – ela nunca foi fácil, cheia de caprichos – mas talvez eu pudesse ter dado umas boas ideias àquele idiota apaixonado. Sempre tive boas ideias, tanto que transformei minha vida em um sucesso indiscutível, longe da mediocridade, do cheiro estagnado de periferia em que quase todos meus velhos conhecidos vivem até hoje mergulhados.
 
Desviei o olhar da janela envidraçada, censurando, intimamente, a inútil curiosidade dos policiais. Sérgio notou para onde eu estivera olhando e atacou:

‘Os policiais incomodam você? Não quer que o vejam, não é? Afinal... esta prisão imunda não é lugar para alguém do seu tipo. Mas Raquel... ela poderia ter evitado tudo isto, não é? Não é isto que você acha?’

 
Ele me torturava. Maldito. Balancei a cabeça, apressadamente. Não. Não. Um cheiro de detergente e urina me invadiu as narinas, deixando-me nauseado.

‘No fim, Raquel é a culpada de tudo, não é?’ – Sérgio se levantiou de um salto. Pensei que ele fosse saltar a mesa e quebrar meu pescoço. Desesperado e enfim consciente de que o meu antigo conhecido não era mais o mesmo, que nada guardara do rapaz com quem fui ao cinema várias vezes e ouvi discos do Kiss e Gun’s and Roses. Transformara-se num homicida, mais do que confesso, orgulhoso da sua selvageria. Pensei em me levantar também e chamar os guardas, mas Sérgio se antecipou.

‘Guardas. Quero sair daqui. ’.
 
Os mesmos guardas que me trouxeram o levaram embora. Mais calmo, esperei que voltassem para me conduzirem à saída. Queria partir o mais rápido possível de Rio da Prata. Ansiava pela brisa do final de tarde em Saint-Germain-des-Prés, pelas sombras acolhedoras dos arranha-céus na Quinta Avenida, pelas badaladas do Big Ben marcando as seis da tarde; queria submergir naquele mundo sem fronteiras que eu soube, como poucos, conquistar para mim. Raquel era passado. Sérgio também. Aquela cidade perdida no nada onde um dia eu nasci – certamente por um destes azares cosmológicos – era o fundo de um poço úmido e cinzento para o qual nunca mais eu volveria meu olhar.
 
Com certo desagrado, comecei a achar que os guardas estavam demorando demais para voltar.

 
 
‘Meu Deus!’ – Sérgio segurava a cabeça com uma das mãos, pálido, o rosto jovem afirmando seus dezessete anos, mas o tremor nos ombros largos aproximando-o de uma fragilidade insuspeita.

‘Ele falou algo mais?’ – perguntou o Delegado Estrela enquanto assinava documentos espalhados sobre a mesa.

‘Ele pensa que já se passaram anos desde o crime... que ele conseguiu escapar... disse que vive no exterior, na França, sei lá. Meu Deus!’.

 
‘Não confessou nenhum outro crime?’ – perguntou Estrela, erguendo os olhos dos papeis assinados – O pessoal da Delegacia da cidade vizinha tá investigando o sumiço de duas moças, da mesma idade de Raquel. ’.
 
Sérgio meneou a cabeça negativamente. Estrela entregou os papeis a um agente e se levantou.
 
‘Já é tarde. Quase onze da noite. Vá para casa. Foi um dia difícil. ’ – disse o delegado pondo a mão pesada sobre o ombro ainda trêmulo de Sérgio.

‘Pôrra! A gente nunca desconfiou dele. Ele foi ao enterro de Raquel, chorou com a mãe dela, foi à mina casa – imagine, a minha casa! – para me consolar. Que pôrra é essa, doutor? Que tipo de animal... ’.

 
‘Vamos indo. ’ – cortou Estrela, apagando a luz da sala e conduzindo Sérgio para a saída – ‘Com o tempo, você vai entender. Ou...’ – ele suspirou, desenganado – ‘nunca vai entender.’.
 
A janelinha da sala deixava o sol passar em um fiapo cada vez mais estreito. Um absurdo me deixarem aqui até agora enquanto o assassino de uma menina linda e inofensiva eles tratam como hospede de luxo. Deveria ter trazido um livro para passar o tempo, mas eu estava tão ansioso que me esqueci. Uma pena.
 
Ainda bem que sou um homem decidido. Rio da Prata nunca, nunca mais!
          
alexandre gazineo
Enviado por alexandre gazineo em 10/06/2014
Alterado em 10/06/2014


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